Próximos anos reservam espaço para quem planeja, decide e gera valor para o negócio na área tributária.
Por Mariana Lazzarini
Por muito tempo, o profissional da área tributária foi designado — e muitas vezes confinado — a um papel estritamente técnico. Sua missão era clara: garantir que os impostos fossem pagos na data certa, que as obrigações acessórias chegassem à Receita Federal sem erros e que a empresa não acumulasse juros nem multas. Dominar a diferença entre tributos federais, estaduais e municipais, entender a linguagem da legislação e responder a auditores com segurança eram as competências centrais desse perfil. Um profissional que operava apenas “dentro das quatro linhas”.
Esse cenário começou a se transformar pela própria complexidade crescente do sistema tributário do Brasil, um país continental, heterogêneo, com necessidades fiscais distintas entre estados e municípios, em que a guerra fiscal do ICMS convive com incentivos locais que determinam onde empresas instalam fábricas e operações logísticas. Nesse ambiente, o profissional de tax foi forçado a evoluir — quase no sentido darwiniano do termo. Sobreviveu quem aprendeu a enxergar além da guia de imposto.
Tax como parceiro estratégico do negócio
Essa virada deu origem a um novo perfil, que o mercado passou a chamar de business partner de tax — um termo que, até recentemente, pertencia exclusivamente ao vocabulário das áreas comerciais e de planejamento estratégico. Trazê-lo para o universo tributário não é uma questão semântica: é o reconhecimento de que o tributarista precisa entender do negócio como um todo.
Na prática, isso significa saber que a escolha de onde instalar um centro de distribuição não é só uma decisão logística: ficar um pouco mais longe da fábrica pode fazer sentido se o município oferecer incentivos fiscais que ampliam a margem. Significa entender que a recuperação de créditos de PIS e COFINS impacta diretamente o fluxo de caixa, e que um prejuízo fiscal, bem administrado por meio de uma reestruturação societária, pode resultar em anos sem pagamento de imposto, afetando balanço, resultado e estratégia. Significa compreender que cada decisão tributária toca, em algum ponto, o comercial, a logística, a industrialização, a margem e a tesouraria. É por isso que se diz, no mercado, que o bom profissional de tax é o executivo que, depois do CEO e do CFO, mais entende da empresa.
A Reforma Tributária em curso chegou menos como uma ruptura e mais como um holofote. A necessidade de um perfil estratégico em tax já existia antes dela, gerada pela instabilidade jurídica e econômica crônica do país — um ambiente em que um mandado de segurança pode orientar uma decisão hoje e ser revertido por lei amanhã. O que a Reforma fez foi colocar o tema na pauta obrigatória das empresas e, ao forçá-las a tangibilizar seus impactos internamente, revelou algo que muitas ainda não haviam percebido com clareza: a área tributária gera valor para o caixa. Com isso, organizações que mantinham o tax embutido na contabilidade passaram a criar estruturas dedicadas, com profissionais especializados e autonomia para atuar de forma estratégica. Para os líderes de tax que souberam usar esse momento, foi a oportunidade de mostrar, com números e impacto real, por que a área merece atenção e investimento.
As competências que o mercado valoriza agora
As empresas buscam cada vez menos o especialista técnico puro e cada vez mais o profissional dinâmico, ágil e orientado ao futuro. As hard skills continuam necessárias. Não há como dispensar o domínio da legislação em um país onde as regras mudam com frequência. Mas o diferencial competitivo migrou para o comportamental: visão crítica e analítica, capacidade de fazer conexões entre áreas, comunicação com outras lideranças e, sobretudo, aptidão para olhar para o futuro, não para o passado.
É nesse contexto que a inteligência artificial entra na conversa, mas com as expectativas calibradas. A IA já demonstra capacidade de executar bem a parte operacional fiscal: ler relatórios, processar números, identificar obrigações cumpridas e pendentes. O que ela ainda faz com limitações significativas é interpretar como esses dados se encaixam no contexto político e na insegurança jurídica específica do Brasil — uma leitura que exige julgamento humano e vivência de negócio.
Essa leitura contextual e prospectiva permanece como território humano. A tendência é que o profissional delegue progressivamente as tarefas operacionais para ERPs e ferramentas de automação, concentrando sua atuação no que a tecnologia não substitui: o julgamento, a conexão entre variáveis, a decisão. Mas é importante não antecipar o que ainda não chegou — grande parte das empresas ainda está em estágio inicial ou em desenvolvimento em relação a automatização de processos.
O profissional de tax está deixando de ser o guardião do passado fiscal da empresa para se tornar um arquiteto de decisões. O foco se desloca do que foi pago para o que deve ser planejado. Do compliance para a estratégia. Da operação para a decisão. Estruturas de tax integradas a BI, tecnologia, planejamento estratégico e M&A já estão sendo criadas, e a Reforma Tributária, com seus desdobramentos previstos para os próximos anos, garante que esse debate não vai arrefecer. O tributarista que souber navegar essa transição com visão prospectiva terá protagonismo garantido.
O conselho para quem quer crescer na área
Prepare-se para decidir, não apenas para executar. O mercado já não precisa — ou pelo menos já não precisa tanto — de quem processa obrigações e apura impostos. Precisa de quem entenda o negócio, antecipe cenários, dialogue com outras áreas e transforme o conhecimento tributário em vantagem competitiva. Ser um business partner de tax não é uma aspiração de carreira; é o ponto de partida para quem quer ser relevante nos próximos anos. A pergunta que cada profissional deve se fazer não é mais “quanto imposto a empresa pagou?”, mas “qual decisão tributária vai mudar o resultado desta empresa no futuro?”.